LIVRO – Utopias realizáveis (Yona Friedman) – Capítulo: Prefácio

Prefácio

A análise de certas utopias sociais apresentadas nesse livro implicam, de forma implícita, na acusação de dois “bandidos” de nossa época que são: o “Estado mafioso” e a “máfia das mídias” (imprensa, televisão etc.). A existência de um “Estado mafioso” é a consequência da impossibilidade da manutenção do Estado democrático clássico assim que as dimensões do Estado ultrapassaram certos limites, e a “máfia das mídias” deriva diretamente dessa impossibilidade de comunicação global (mundial). A Internet pode ser citada como exemplo para mostrar que essa impossibilidade não é o resultado de dificuldades técnicas, mas vem da inadaptação humana fundamental à comunicação generalizada (de todo mundo para todo mundo). O fracasso dessas duas utopias generosas, a democracia e a “comunicação global” entre homens, leva logicamente a formação dessas máfias que agem livremente em nosso nome e contra os nossos interesses. Ao mesmo tempo em que é uma acusação, esse livro quer ser também um ato de encorajamento: trata-se de encorajar o indivíduo a não consentir tacitamente e nem ajudar essas duas máfias. Esse não é um convite a revolução, mas um convite à resistência.

Como foi possível que, durante a Segunda Guerra mundial, o poder invasor encontrou tão pouca resistência? O invasor jogou com o fato que apenas um soldado ou apenas um policial eram suficientes para impor um determinado comportamento a algumas centenas de “invasores”. Portanto, em certas regiões, esses pequenos grupos de ocupantes se mostraram incapazes de se impor aos ocupados, superiores em nome (na Iugoslávia, por exemplo), e o nazismo não conseguiu “segurar o país”.

Nas máfias modernas, o Estado e a mídia, desenvolveram uma atitude menos brutal — e mais a direita — que o nazismo antigamente: eles tentam nos convencer que somos nós que queremos o que eles querem.

No entanto, esse livro é otimista porque considero que essa tática, por mais habilidosa que seja, não conseguirá ter sucesso. A série de crises que sofremos estão em contradição com as promessas do Estado e da mídia, que dificilmente nos enganará. Todos aqueles que queriam, ou aceitaram as duas máfias, vão começar a perceber que foram perfeitamente estúpidos, ou que foram abusados pela imprensa e pelo Estado em sua atividade principal que é a de mentir para eles.

O fenômeno da degradação do Estado e da mídia não é resultado da malícia pura e simples dos políticos ou dos jornalistas; decorre de certas impossibilidades fundamentais das quais não se fala nunca: os “líderes” não podem mais governar os Estados, eles não podem mais “manter contato” com as massas que se tornaram muito grandes. Por ambição, pelo gosto do poder, por amor aos signos externos do poder, eles não podem se resignar e tornarem-se os governantes de pequenas organizações, a considerar a limitação de poder que resulta do caráter igualitário das organizações de pequenas dimensões, e, naturalmente, da menor quantidade de “governados”. Quando a multidão de governados, se sentindo abandonada, começa a organizar sua sobrevivência em pequenas comunidades auto suficientes, capaz de garantir os serviços públicos, enquanto os governantes, mais preocupados com o teatro e a “simulação” do que em garantir o bom funcionamento dos problemáticos serviços públicos, rotulam essas tentativas como “movimentos marginais”.

Portanto, os movimentos marginais de hoje em dia talvez representem as soluções do futuro?

Quanto às mídias, elas não funcionam como “crítica dramática” das performances teatrais dos governos, mais preocupadas com o “efeito” a ser produzido do que em informar os fatos, e nem sequer percebem: as mídias não mentem, elas são cegas. A deformação do jornalismo é tal que o público, desencorajado, não lê mais os jornais: é certo que, o que lhes será apresentado como essencial, não será, para eles, nada mais que eventos inócuos. A autocensura das mídias decorre de sua maneira de observar as coisas; subscrevendo ao mito mantido pelos governantes.

Finalmente, governantes e mídia estão hoje isolados da maior parte daqueles que procuram alcançar.

Esses são os fatos, não são novamente um ato de acusação. O ato de acusação seguirá por esse livro, onde tentei demonstrar que as profissões de fé dos governantes (para chegar a um plano benéfico às grandes massas) e das mídias (para chegar a uma comunicação e informação globais) são irrealizáveis. Os primeiros por causa do fenômeno que chamei de “grupo crítico”; e os segundos por causa do problema que chamei de “problema de acesso”. Sem reorganização, nenhuma ideologia pode mudar essa situação, característica das organizações sociais que excedem certas dimensões.

A ÚNICA SOLUÇÃO CONTINUA SENDO A DOS PEQUENOS GRUPOS

Somente as pequenas comunidades podem resolver os problemas de sobrevivência e o papel dos governos e da mídia deve ser encorajar essa atitude. Durante séculos, governos e mídia sempre rejeitaram aqueles que pretendiam tentar realizar seus projetos por conta própria, sem especialistas e líderes. Em efeito, cada um é o único especialista de seus próprios assuntos e o único líder qualificado para esses assuntos. Os seis bilhões de especialistas e líderes de hoje só podem resolver suas próprias crises e seus próprios problemas — muito limitados. Hoje as crises capazes de tocar a grande coletividade são cada vez mais graves, por consequência do aumento vertiginosos das sociedades humanas e do desenvolvimento da tecnologia. O tempo passa, e as utopias de outrora, que se realizam só agora, já estão desatualizadas. Nossas utopias realizáveis serão, sem dúvida, deformadas e ultrapassadas como as outras, em algumas décadas, mas por agora elas são necessárias e urgentes como um remédio. Sendo assim, esse livro é menos sobre futurologia e mais sobre “presentologia”.

A questão não é tanto defender meu livro quanto para exprimir minhas opiniões sobre certa “presentologia”, mas aceito de bom grado que posso estar enganado (o papel de um autor é fazer erros úteis). Portanto, se eu conseguir fazer com que meu leitor reflita sobre algum dos problemas, já terei alcançado meu objetivo.

Essa introdução foi escrita em 1974. Hoje, vinte e cinco anos depois, ela continua atual: por todo o mundo vemos sociedades imobilizadas, decisores que não tem os meios para decidir — milhões de vítimas dessa “sociedade” incapaz de decidir e reagir. Nós somos as vítimas de nossa incapacidade para conhecer os limites, de nossa megalomania ridícula frente aos meios reais (não técnicos) que temos.

Comunicação e telecomunicação não são sinônimos. Em matéria de telecomunicações, a distância que separa os parceiros não conta, e a comunicação é instantânea. Mas se eu interpreto equivocadamente uma mensagem comunicada face a face, também interpretarei equivocadamente uma mensagem recebida pelos meios de comunicação mais sofisticados. Os meios técnicos servem apenas para reduzir o esforço necessário: eles trazem a facilidade.

Uma grande parte dos problemas de hoje se devem ao fato de que queríamos criar uma “sociedade da facilidade”.

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